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Espiritualidade corporificada num parto natural hospitalar

(Artigo de Adelise Noal Monteiro)

"Todos os atos contam. Cada pensamento e emoção conta igualmente. Este é todo o caminho que temos. É aqui que aplicamos os ensinamentos. É aqui que chegamos a compreender porque meditamos. Só vamos estar aqui durante um breve instante. Mesmo que vivamos até os 108 anos, a nossa vida será demasiado breve para testemunharmos todas as suas maravilhas." Pema Chodron

Parto da Ana Luisa

Data de Nascimento: 22/12/2009

Hora: 8:18 am

Kin 153, Caminhante do Céu Planetário Vermelho (calendário Maia).


Neste parto, fui chamada para acompanhar e fazer a analgesia do trabalho de parto e parto com acupuntura e massagem aliadas a medicamento homeopático e fitoterápico.

Fizemos um primeiro contato durante a gestação em torno da trigéssima quarta semana. Na sua primeira gestação, há 5 anos atrás, teve um parto normal, sendo seu tio, o obstetra. Na segunda gestação, pensava em vivenciar seu segundo parto normal, assistido pelo tio obstetra e agora buscando a analgesia do parto comigo depois de saber de meu trabalho como médica parteira. Queria fazer uma experiência nova. Conversamos e nos preparamos para ela.

Ana Rita começou a fazer uso de um composto homeopático e outro fitoterápico nas últimas semanas de gestação. O objetivo era melhorar a efetividade funcional do útero no trabalho de parto.

O início do trabalho se apresentou com contrações dolorosas de forma esparsa, durante todo dia, porém somente na madrugada do dia 22, as contrações se configuraram no trabalho de parto propriamente dito.

O hospital escolhido, Divina Providência, se situa numa região alta de Porto Alegre, no morro da Glória, cercado de vegetação nativa. Este hospital oferece uma maternidade onde o serviço obstétrico visa atingir os objetivos previstos pelo movimento do parto humanizado. Com certeza, podemos dizer que é uma referência, no sentido de propiciar um bom atendimento ao parto normal hospitalar. A sala de parto normal tem uma mesa obstétrica que se transforma em cadeira facilitando a posição da parturiente no período expulsivo. As pessoas que assistem o parto não precisam usar as roupas do CO (centro obstétrico). É permitido a gestante chamar o pai e mais uma outra pessoa da sua confiança para estar junto no trabalho de parto e parto. O ambiente é acolhedor por parte das enfermeiras e auxiliares obstétricas, com mínimas intervenções que só existem pelo funcionamento adequado dos procedimentos de rotina. Posso dizer que é um hospital que está produzindo uma maternidade preocupada com o movimento de humanização do parto. Isso é importante salientar para que outras mulheres grávidas da cidade pensem nele como uma boa alternativa.

Voltando ao parto, Ana Rita internou mais ou menos às 6hs da manhã e uma hora depois já estava com 8cm de dilatação e as dores das contrações se tornaram mais intensas. Foi feito acupuntura na região lombar, associado a uso do fitoterápico( Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis), em gotas, de 15 em 15 minutos e massagem nos pontos de dor durante as contrações. Só foi retirado as agulhas de acupuntura quando se completou a dilatação. Daí em diante, Ana Rita que estava em decúbito lateral direito se reposicionou para uma posição aproximada a cócoras, na mesa obstétrica que foi então colocada em forma de cadeira obstétrica.

Para que eu pudesse continuar as massagens durante o período expulsivo, massageava com a mão direita no lado em que eu estava e colocando o braço esquerdo passando por cima , envolvendo a barriga para atingir o outro lado da região lombar, no local das dores. Desta forma, minha posição era de estar literalmente abraçada na região da barriga de Ana Rita

Lembro aqui, dos escritos da monga budista Pema Chodron, em seu livro Quando tudo se desfaz:

"A minha experiência é que, ao praticar sem uma idéia de como as coisas "devem ser", lentamente vamos descobrindo o nosso estado de vigíli e a nossa confiança. Sem nenhuma exigência exceto sermos honestos e afetuosos, assumimos a responsabilidade por estarmos aqui neste mundo imprevisível, neste momento único, neste precioso corpo humano."

É o que acontece de especial em cada parto que auxiliamos. As configurações se fazem de modo intuitivo-instintivo, só temos que fluir nelas. Essa é nossa tarefa.

Quando refiz o parto na memória a fim de contá-lo percebi que a expressão "espiritualidade corporificada" podia ser aplicada a esta experiência. Ela traduz a atitude das parteiras. Suas mãos tocam o corpo da gestante e lêem, interpretam o movimento que está acontecendo nas entranhas maternas e, comungam a mesma experiência. Ajudam, doando sua força interior, transmitida através de suas mãos. Um acréscimo que faz a diferença na evolução do trabalho de parto.

Abraçada na barriga de Ana Rita sentia com ela a descida progressiva do bebê através do canal do parto. Com carinho e chamando sua atenção para que a força correta no baixo ventre fosse mantida durante cada contração.Lembrando também da conexão espiritual profunda que temos que ter em mente nesta hora sagrada do nascimento.

Parto = força física + força espiritual

Na comunhão de todos, Ana Rita, o pai, o obstetra e eu, nasce Ana Luiza às 8:18hs da manhã do dia 22 de dezembro. Com Apgar 9 no primeiro minuto e 10 no quinto minuto. Tudo na maior harmonia e na paz que um momento único como este merece ser vivido.

Ainda são pequenas as conquistas que temos no dia-a-dia, dentro deste trabalho de resgate feminino na experiência da gravidez, parto e puerpério. Bom reconhecer que já temos estes frutos, e que também se fazem presentes em alguns locais de atendimento as gestantes. Neste caso, o hospital Divina Providência.

Como disse Pema Chodron: "A chave é alterar os nossos hábitos e, em especial, os hábitos da nossa mente. Ainda me lembro do dia em que percebi sem sombra de dúvida que criamos a nossa situação através do modo como usamos a nossa mente, através do modo como padronizamos repetidamente as nossas respostas à vida da mesma maneira antiga, muito poeirenta e previsível. ...É isso o dharma; transformar todos os nossos hábitos,inverter o processo através do qual tornamos tudo tào sólido, inverter a roda do samsara. ...O dharma pode curar as nossas feridas; as nossas feridas mais antigas, que não derivam do pecado original, mas sim de um mal-entendido tão antigo que já não o conseguimos ver. A instrução consiste em relacionarmo-nos compassivamente com o lugar em que nos encontramos e começar a ver a nossa situação como passível de ser trabalhada. Estamos bloqueados em padrões de apego e fixação que levam a que os mesmos pensamentos e reações ocorram vezes e vezes sem fim. É assim que projetamos o nosso mundo. Quando encaramos isso,mesmo que seja apenas por um segundo de tres em tres semanas, descobrimos naturalmente a maneira de inverter este processo de endurecimento das coisas sólidas, a maneira de deter o mundo claustrofóbico tal como o conhecemos, largar os nossos séculos de bagagem adquirida e pisar território novo. Se perguntar como podemos fazer isso no mundo, a resposta é simples. Tornando o dharma pessoal, explorando-o de todo coração e relaxando."

Adelise Noal Monteiro é pediatra, parteira e psicoterapeuta junguiana. Veja seu perfil aqui.

Comentários (4)

Ahau:

Ahau comunica que o calendário da Paz, apesar de ter a mesma intenção, não é o calendário maia tal qual concebido pelos filhos de Kinich Ahau.

Vicente L. C. Rubino Author Profile Page:

Ahau,

Obrigado pelo comentário.
Realmente, o Calendário da Paz tornou-se mais popular do que o Calendário Maia tradicional.

In Lak´ech !

Brisah:

Lindo trabalho o seu irmã!
Um exemplo de humanidade.
E sou Caminhante do Céu Planetária tb =)

Laisa:

Dê, querida!

Fiquei muito emocionada com o seu relato. Uma enorme sensibilidade e delicadeza com o ser humano.
Realmente muito lindo e corajoso da parte de todos que participaram.

Grande abraço e saudades!
Laisa

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