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Antes de escrever esse artigo revi os mais de 30 artigos que mencionam a palavra Garapiá que foram escritos aqui no Mondo. Esse artigos compõe uma boa descrição do ciclo que passamos dentro do "ramo do psy".
Se antes existia uma idealização, um sentimento de descoberta do Jardim do Éden que eu já denominei de a "Celebração Coletiva do Ser", esse sentimento foi se sedimentando e se transformando, na medida que recebia as influências inerentes ao crescimento da cena.
Com o crescimento da cena, o movimento psytrance se transformou num "ramo" e cresceram as festas comerciais e com elas houve um maior destaque da cena na mídia e consequentemente um maior número de pessoas entrantes. Os núcleos das produtoras de festas proliferaram, o calendário enlouqueceu e se antes tínhamos uma boa festa por quinzena, hoje os núcleos brigam entre si pelas datas de fins de semana.
Antes a mídia tratava as raves como a marginália da sociedade, com manchetes no Jornal da Globo do tipo "centenas de pessoas foram presas com drogas numa rave". Com o crescimento das festas, com a entrada das festas comerciais para dezenas de milhares de pessoas e principalmente com o surgimento dos grandes patrocinadores (que são os mesmos que patrocinam os grandes grupos de mídia como tv, rádio e jornais...), as manchetes do Jornal da Globo passaram a ser assim: "Jovens passam a noite dançando no ritmo da música eletrônica!" e até o RajaRam foi entrevistado na telinha. Entendem o perverso movimento da mídia? Agora é bom, porque dá lucro!
O problema do lixo expôs de forma nua e crua o nível de conscientização do "ramo do psy". Produtores e público chafurdando em meio ao descaso com a Mãe Terra, que deveria ser a preocupação primordial num movimento que visava resgatar a essência. Por que não existe nada de mais essencial do que a Terra.
O "nível de fritura" também chegou num nível tal que tornou a diversão muito difícil para alguém que não esteja compartilhando da mesma (baixa) energia que predomina na pista.
A própria música se segmentou e hoje até dá espaço ao enfadonho electro, que pode ser classificado de tudo, menos de psicodélico.
Ao lado disso tudo, temos o Garapiá Trance Festival. O Garapiá é uma festival, por ser uma festa de mais de dois dias, em meio a um paraiso ecológico situado num vale da Serra do Mar, na região de Barra do Ouro, no Rio Grande do Sul.
O Garapiá começou pequeno, chegou a talvez 250 pessoas em 2005, 600 pessoas em 2006 e ainda bem que essa progressão não se efetivou em 2007. A programação que ocorreria no carnaval e que já estava provocando a maior agitação em meio ao público da cena, foi cancelado na véspera. O cancelamento "supostamente" se deu por pressão dos ambientalistas da região, que negaram o alvará para a festa. Foi melhor assim. Acredito que nesse momento fatalmente o Garapiá teria a sua essência pisoteada pelos fatores mencionados acima. O Garapiá sendo coberto pela mídia da RBS, transformado numa pocilga de lixo e tomado por uma legião de fritos sem-noção é uma cena do inferno que eu não quero ver na terra.
Então, de forma sutil, foi tomando corpo a idéia de desfrutar do santuário ecológico do Garapiá num feriadão, em meio aos amigos, com o bom e "velho" psytrance. Nada de mídia. Nada de flyer. Nem tópico no PsyRS. Nada da pompa de um festival. Nada de "line-up de peso". Nada de sound system para acordar os ecologistas ou perturbar a bicharada. Seria uma confraternização "roots".
E assim foi. Neste feriado de Páscoa, poucas pessoas chegaram ao Garapiá, para mais uma "Celebração". Só que dessa vez, ao invés de uma "Celebração Coletiva do Ser", como nos outros anos, tivemos uma "Celebração Privativa do Ser". A palavra "Ser" aqui é usada como o Algo Maior, como o Cósmico, como o Inominado.
O camping permaneceu solemente limpo. As pessoas que (ainda) fumavam se preocupavam de colocar as bitucas nos diversos cinzeiros disponíveis na pista. Nenhum papel, lata ou garrafa no chão. Na tarde de sábado e na madrugada de domingo o som foi desligado para descanso, e pudemos ouvir o som da natureza, do rio, da chuva e dos pássaros.
Os DJs se revesavam harmonicamente. O Moico abriu a pista no sábado e fez um set progressivo evoluindo para o groove, com muita técnica. O Calliari fez um B2B com o Luquinhas muito bom, e em meio da chuva, já de noite, dançamos bastante. A diversão foi garantida no barro que se formou sob os nossos pés. Naquela noite o Calliari tocou por 09 (nove) horas, estabelecendo o novo record "mondial" de duração de set.
Em certo momento eu e Lú Rosa resolvemos descansar dentro do carro, e aproveitamos para fazer uma rápida meditação. No MP3 Player do Fiesta Psy rolavam ininterruptos hinos quando um deles declamava: "Verde, Azul e Branco, Rei Jagube e Mãe Rainha. Verde, Azul e... BRANCO!!!" A música parou!!! O BRANCO ficou em minha mente. Não entendia o que acontecia. Abri os olhos e recoloquei a frente do MP3 Player no painel do carro. Foi quando mais uma vez o chamado se manifestou: 11:11 era o horário que piscava no painel fosforescente do painel. Eu e a Lú mais uma vez entendemos que nada é por acaso. Eu lamento apenas de quem recebeu o chamado e por diversos motivos que podem se resumir a falta de Fé, se distanciou de sua Missão. Viva o 11:11 !!!!
Domingo de manhã e o sol abriu! Cachoeira!!! Lá fomos nós, mas dessa vez a estrada estava totalmente danificada pelas fortes enchurradas que destruiram pontes e encheram o caminho de pedras. A trilha se transformou em um trekking roots, que deu mais emoção ao passeio.
Toda essa movimentação nos deu fome, e fomos almoçar num recanto em plena trilha, onde pudemos nos servir direto das panelas que estavam sobre o fogão de lenha. Comida caseira, com produtos colhidos ali mesmo na região! Eu e a Lú encontramos com o Calliari e a Aninha nesse almoço.
Voltamos para o "camp". Encontramos com mais amigos, como o Pierre e a Cacá, e o Tiago e a Pú. Como é bom encontrar com os amigos da Egrégora do Bem. O fim de semana não foi melhor apenas pelo fato de muitos Amigos não estarem lá conosco.
Nós já tivemos uma época da "Celebração Coletiva do Ser". Neste fim de semana tivemos a "Celebração Privativa do Ser". Que em breve possamos ter a "Celebração Individual do Ser", quando reconhecermos e nos encontrarmos com o Ser Divino que habita em nós e assim possamos reiniciar o ciclo, porém numa oitava acima.